18 julho 2007

EU ACUSO: Companhias, Lula, ANAC, os controladores e a Imprensa!


Brada a imprensa nacional:
"Mortos já são 160".
"Maior acidente da história".
Entre dois até dez dias, quando se confirmar que o avião bateu porque a pista carecia de "grooving" --ranhuras feitas na superfície do pavimento que facilitam o escoamento de água-- o que dirá nossa imprensa? Oras, que o governo é irresponsável, que os culpados devem ser processados e eletrocutados, que isso não pode ficar assim, que esse país é uma vergonha.
Mas...
Qual será o repórter a dizer J'accuse para a imprensa? Qual será o representante da mídia que vai ao ar justificar a pressão PELO RÁPIDO FIM DO "caos aéreo". É certo que a reforma da pista era mais importante que a do terminal, e por isso deveria ter sido feita antes, mas a liberação prematura da pista é muito mais culpa da imprensa, e da incapacidade dos nossos governantes de ir contra ela, do que qualquer outra coisa.

Por meses nossos jornais exclamavam: "Caos Aéreo" - "Vôos em atraso" - "Ministra diz que o atraso é inevitável: 'relaxa e goza'"

O jornal o Globo de 06 de Dezembro obtém a seguinte declaração do presidente da ANAC Milton Zuanazzi: "O brasileiro não deve ter medo de voar. Ontem, o caos ocorreu, por segurança. Jamais um avião vai voar no Brasil se detalhes de segurança não forem observados".

Mas a pressão foi maior, todas às vésperas de feriados, os repórteres corriam aos aeroportos e filmavam gente que não havia conseguido viajar porque o vôo atrasou. Mostravam como processar as companhias (e mesmo após a quebra da Varig falam em lucros exorbitantes), reclamavam das filas, falavam do Procom, filmavam crianças dormindo no chão e pressionavam as autoridades. É certo que os problemas com controladores são sérios, mas o grande responsável pelo "Caos Áereo" era Congonhas:

"11. Por que sempre que se fala em atrasos nos vôos, o aeroporto paulistano de Congonhas recebe atenção especial?

Congonhas é o maior aeroporto do país em número de passageiros - 18,4 milhões em 2006 - e de vôos - 600 por dia. Quando não é o causador das ondas nacionais de atrasos de vôos, o aeroporto localizado no meio do caos urbano de São Paulo é o mais afetado por elas, e acaba refletindo isso nos outros terminais do país. Ele trabalha há anos acima de sua capacidade - poderia receber, no máximo, 12 milhões de passageiros por ano. Para piorar, desde 24 de janeiro de 2007, toda vez que a chuva forma uma lâmina d'água sobre as duas pistas do aeroporto de 3 ou mais milímetros de profundidade (a espessura de uma moeda de 50 centavos), os pousos e as decolagens são suspensos por questões de segurança. Cumbica, em Guarulhos, e Viracopos, em Campinas, têm capacidade imediata de absorver, respectivamente, 20% e 2% das operações de Congonhas, mas em breve também precisariam ser ampliados." (Veja on-line).

Se congonhas é tão importante para a situação dos vôos no país, se os jogos do PAN vão começar e ninguém quer se atrasar, se está feio pra o governo...eu pergunto: Por que não abrir mão de um pouquinho de segurança e "inaugurar as obras sem groving"?

Fábio Portela na Veja, faz menos de um mês 11-07, em "As soluções para o caos aéreo", diz o "cerne da crise aérea está no Aeroporto de Congonhas." Suas respostas são simples: Desafogar logo Congonhas, adequar a operação das companhias aéreas à infra-estrutura existente e construir um terceiro aeroporto em São Paulo.

Ora, mas será que existe neste país político capaz de enfrentar a imprensa e dizer: "Os atrasos acontecem porque estamos numa situação de reforma em Congonhas. E eu não entrego o aeroporto enquanto a segurança não for máxima ! Vocês preferem entrar num vôo seguro que atrasa, ou num vôo inseguro que sai na hora?!"

Estou louco?!! Ora, VEJA esta notícia do Carnaval:

Juiz proíbe dois modelos de aeronaves de utilizarem o aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Medida pode provocar “efeito dominó” e afetar 10 mil passageiros. Governo recorreu da decisão

Pelo menos 10 mil passageiros correm o risco de ficar sem folia durante o carnaval por uma decisão da Justiça Federal que proibiu os aviões modelo Fokker-100, Boeing – 737/800 e 700 de utilizarem o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o maior em movimento aéreo do país. Para tentar salvar a festa dos foliões, Infraero e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) anunciaram ontem que irão recorrer da decisão, que começa a valer a partir de meia-noite de hoje.

Na segunda-feira, o juiz substituto da 22ª Vara Federal de São Paulo, Ronald Carvalho Filho, decidiu proibir pousos e decolagens em Congonhas por considerar que há risco de derrapagem de aviões em dias de chuva.

Ou isso:

A diretora da Anac, Denise Abreu, informou que a agência está recorrendo da decisão "porque os passageiros que já compraram suas passagens, inclusive para o carnaval, serão afetados assim como as empresas também foram atingidas".

Nossos governantes cederam a pressão do imediatismo midiático! Cederam a nossa necessidade de soluções rápidas. Mas fomos nós que exigimos soluções rápidas... SOMOS nós que reclamamos dos atrasos e que pedimos soluções rápidas. Somos nós que apreciamos atitudes de energia e de alcance imediato: "Pena de morte já" ao invés de "educação de longo prazo" - "Contratem mais controladores Já"...

Nós não temos paciência para esperar um controlador ser treinado, não temos paciência para esperar a pista ser reformada adequadamente, não temos paciência para esperar as obras do metrô serem executadas com segurança, não queremos reformas em favelas e integração com as comunidades, queremos muros e polícia... queremos tudo rápido, para ontem.

Custou-nos caro. Olho no espelho, e acuso. - Carlos Lavieri



5 comentários:

Angela disse...

E o Serra falando ontem que deveríamos diminuir os vôos de Congonhas... Deveria ser proibido ter um aeroporto no meio da cidade, principalmente em um dos lugares que mais tem gente passando em São Paulo. Desde 1996 quando teve aquele acidente da TAM já era para as autoridades começarem um plano para tirar o aeroporto de lá. Tenho certeza que em 11 anos, se o Brasil fosse um país sério, já teriam resolvido isso.

Angela disse...

Para gerar mais polêmica, leiam: http://www.sandrapontes.com.

SAM disse...

É certo o entendimento de que a pressão da mídia afasta a razão dos governos, com medo ou por incompetência. A mídia busca o sensacionalismo. São dois dias de intenso noticiário e nada mais.

Abraço

Thássius disse...

Eu entendo diferente. Hoje em dia a imprensa tem o papel de cobrar porque o povo em si não o faz. Não se vêem mais protestos, greves gerais, nada do tipo. O cidadão médio brasileiro só se atenta para a novela (que passa depois do JN, recheado de denúncias). Esquece que ele faz parte dessa nação, e que sua inércia contamina nossas instituições.

O povo tem o direito de cobrar obras rápidas sim, sem filas, com conforto. Mas eu nunca ouvi dizer que alguém preferia uma obra mais rápida e insegura a uma mais lenta mas que correspondesse aos padrões internacionais.

O problema dos nossos (des)governos é que levam-se anos fazendo obras, que ainda terminam ruins. Quando terminam.


Thássius
www.memoriasfracas.com

Rodrigo disse...

Parabéns pelo artigo Carlos! Excelente ponto de vista. Um abraço!