06 fevereiro 2008

Sobras e Sombras

Em episódio da série Lost é oferecia a possibilidade que todos os eventos da ilha sejam na verdade um delírio de, Hugo "Hurley" Reyes, que dopado de Clorazepam, em uma clinica psiquiátrica estaria sonhando os personagens, os romances, as mortes, os episódios e finalmente, a sua própria vida. A idéia não é nova nas séries de TV ou no cinema. Consigo me recordar do mesmo "artifício" na série Buffy ( a caça-vampiros) e usando um exemplo extremo, de delírio coletivo, e não individual, no filme Matrix.

Ainda que no mundo atual restem poucos mistérios, concebê-lo como uma "viagem" do cérebro, é filosofia das boas, que permanece como uma questão não resolvida. Desde que o homem intuiu que havia dois mundos, um real, e um percebido, há a dúvida sobre o quão próximo do mundo real, é esse outro mundo construído, em que vivemos. O mito da Caverna platônico ilustra a primeira decorrência dessa dissociação homem e realidade. Talvez, o que enxergamos, ouvimos, respiramos, cheiramos, comemos, seja apenas pálida sombra de uma realidade muito maior e mais completa. Restam-nos apenas as sobras, sombras pálidas, projetadas no fundo da caverna.



Mas há outra decorrência, ainda mais fantástica e em certa medida sedutora. Pode-se questionar se não ocorre o inverso. Se o mundo que imaginamos não é muito mais rico e real do que o outro físico-químico. Prost descreve como um pedaço de bolo o fez recordar-se do quarto da infância, da Tia, da rua, dos Jardins, de toda Combray. Se outra pessoa experimenta aquela “madeleine” certamente não sentiria as mesmas coisas. Havia naquele pequeno pedaço de bolo um universo inteiro, que não há no universo real.

Vivemos um delírio do cérebro? Como definir o que é real? Distingui-lo do sonho?

Stanislaw Lem, autor de Soláris (1961), apresenta-nos seu personagem Cris, que se reencontra com Rheya (Reyes, Rheya... coincidência?) sua esposa já falecida, e coloca o dilema do personagem em diferir sonho de realidade:

"Convinha, antes de mais nada, conceber uma experiência lógica - experimentum crucis - que confirmasse ter eu me tornado verdadeiramente louco, que era vítima de minha imaginação, ou que, apesar da absurda inverossimilhança, eu vivera acontecimentos reais. [...]

Mas seria possível realizar uma experiência-chave? Não, pensei imediatamente, seria impossível, pois meu cérebro desarranjado (se é que estava mesmo) criaria as ilusões que eu exigiria dele." (p.68)

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